Receber o laudo é o momento em que a radiografia industrial deixa de ser um serviço e vira uma decisão: aprovar a junta, mandar reparar ou liberar o equipamento. Mas o documento é técnico, cheio de siglas e números — e quem contrata nem sempre sabe o que confere. Este guia percorre o laudo campo a campo, na ordem em que ele costuma ser lido, e mostra o que cada informação significa para quem precisa decidir.
Para que serve o laudo radiográfico?
O laudo é a evidência objetiva do ensaio. Ele cumpre três funções ao mesmo tempo:
- Rastreabilidade: liga uma imagem a uma junta específica, em uma peça específica, executada em uma data, por uma equipe identificada.
- Prova de qualidade do ensaio: mostra que a imagem tem qualidade suficiente para ser interpretada — sem isso, qualquer conclusão é inválida.
- Registro da decisão: documenta o que foi encontrado e como cada indicação foi julgada contra o critério de aceitação.
Em auditoria de cliente, em inspeção da NR-13 ou em uma perícia, é o laudo — junto com o filme ou a imagem digital — que sustenta a integridade do equipamento. Por isso ele deve ser guardado com o data book da obra.
Identificação: de qual junta estamos falando?
O cabeçalho responde às perguntas básicas: cliente, obra ou contrato, equipamento ou linha, número da junta, diâmetro e espessura, material, processo de soldagem e identificação do soldador. Também traz o número do relatório, a data do ensaio e a referência do procedimento radiográfico.
O que conferir: a identificação do laudo tem que bater com a marcação física da junta e com o isométrico ou desenho. Uma radiografia perfeita da junta errada não serve para nada. Os filmes recebem números de chumbo radiografados junto com a peça justamente para que a identificação seja inseparável da imagem.
Técnica radiográfica: como a imagem foi feita?
Aqui o laudo descreve a técnica: fonte de radiação (raios X com a tensão em kV, ou raios gama com o isótopo — Ir-192, Se-75 ou Co-60 — e a atividade), tipo de exposição (parede simples ou parede dupla, vista simples ou dupla, panorâmica), distância fonte-filme, tempo de exposição, tipo e classe do filme ou do detector digital, telas intensificadoras e número de exposições por junta.
Esses parâmetros não são detalhe burocrático: são eles que determinam se a radiografia é capaz de mostrar a descontinuidade que se procura. Todos vêm de um procedimento radiográfico qualificado conforme o ASME V (Artigo 2) ou a ISO 17636, e é esse procedimento que o laudo referencia.
Qualidade da imagem: densidade, IQI e sensibilidade
Este é o bloco que valida o ensaio. Três medidas aparecem em todo laudo:
Densidade radiográfica
É o grau de enegrecimento do filme, medido com densitômetro calibrado na região de interesse. Fora da faixa, a imagem perde contraste e detalhes somem. As faixas usuais: a ISO 17636-1 exige mínimo de 2,0 (classe A) ou 2,3 (classe B); o ASME V, Artigo 2, aceita de 1,8 a 4,0 para raios X e de 2,0 a 4,0 para raios gama em filme único. Em radiografia digital, o equivalente é a relação sinal-ruído normalizada (SNRn), medida no software.
IQI — Indicador de Qualidade de Imagem
O IQI é um penetrâmetro de fios ou de furos radiografado junto com a peça. O menor fio ou furo visível na imagem comprova a sensibilidade alcançada. O laudo registra qual IQI foi usado (por exemplo, o conjunto de fios da ISO 19232-1 ou o de furos do ASTM E1025), onde foi posicionado (lado da fonte ou lado do filme) e qual fio ou furo essencial ficou visível. Se o fio exigido pela norma para aquela espessura não aparece, a radiografia é repetida — não existe "aprovado com ressalva" nesse item.
Sensibilidade
É a relação percentual entre o menor fio ou furo visível e a espessura da peça — um número que resume a capacidade da técnica de revelar pequenas descontinuidades. O laudo informa a sensibilidade exigida e a obtida.
O que conferir: densidade dentro da faixa, IQI correto e visível, sensibilidade obtida igual ou melhor que a exigida. Se qualquer um desses falhar, o laudo não pode concluir nada sobre a junta.
Indicações: o que a radiografia revelou
Aqui o inspetor lista o que viu na imagem, com a posição ao longo da junta (normalmente em relação à marcação de referência, em milímetros ou em "horas" para tubulação) e o tipo de descontinuidade:
- Porosidade — poros isolados, agrupados ou alinhados;
- Inclusões — de escória (irregulares, mais escuras) ou de tungstênio (pontos claros, no processo TIG);
- Falta de penetração — linha escura reta no centro da raiz;
- Falta de fusão — linha escura fina, geralmente na margem ou entre passes;
- Trinca — linha escura fina, irregular, muitas vezes ramificada;
- Mordedura, concavidade de raiz, excesso de penetração — descontinuidades geométricas.
Cada indicação é dimensionada (comprimento, largura, diâmetro) porque o critério de aceitação depende do tamanho, da quantidade e da soma dos defeitos em um trecho da junta.
Resultado: aprovado, reprovado ou reparar
O resultado não é impressão do inspetor: é a comparação objetiva de cada indicação com o limite do código do projeto. Os códigos mais usados no Brasil e os seus enquadramentos:
| Código | Onde se aplica | O que ele define |
|---|---|---|
| ASME VIII (Div. 1) | vasos de pressão | critérios de aceitação para RT total e por amostragem (UW-51 e UW-52) |
| ASME B31.3 | tubulação de processo | critérios por categoria de fluido (Tabela 341.3.2) |
| API 1104 | dutos e oleodutos | limites por tipo de descontinuidade e comprimento em 300 mm de solda |
| AWS D1.1 | estruturas metálicas | critérios por tipo de conexão (estática ou cíclica) |
| Petrobras N-1595 | contratos Petrobras | requisitos do ensaio radiográfico nas obras da companhia |
Regras práticas que valem em quase todos: trinca reprova; falta de fusão e falta de penetração têm tolerância zero ou muito pequena; porosidade e inclusões têm tabelas de limite por tamanho e espessura. O laudo precisa dizer qual código e qual critério usou — sem isso, "aprovado" não significa nada.
Quando a junta é reprovada, o laudo indica o trecho a reparar. Depois do reparo, o trecho é radiografado de novo e recebe um novo laudo (R1, R2…), que também vai para o data book.
Assinaturas e rastreabilidade do pessoal
O laudo termina com a identificação de quem executou e de quem interpretou: nome, nível de qualificação (N1, N2 ou N3) e número do certificado no SNQC/ABENDI, além da assinatura do responsável técnico da empresa. Em muitos contratos há ainda o campo do inspetor do cliente ou da fiscalização.
O que conferir: o nível do intérprete é compatível com o procedimento (interpretação e laudo são atribuições de Nível 2 ou 3); o certificado está dentro da validade; o responsável técnico é identificável. Em auditoria de fornecedor, esses são os primeiros documentos que o cliente pede.
Checklist para quem contrata
Antes de arquivar um laudo de radiografia industrial, confira:
- Identificação completa e coerente com a marcação da junta e com o desenho.
- Procedimento referenciado, qualificado conforme ASME V ou ISO 17636.
- Qualidade da imagem: densidade na faixa, IQI correto e visível, sensibilidade atendida.
- Indicações listadas com tipo, tamanho e posição — não só "OK".
- Critério de aceitação citado explicitamente (código e parágrafo).
- Assinaturas com nível e número de certificação do pessoal.
- Filmes ou imagens digitais entregues e rastreáveis ao laudo.
Um laudo que passa por esses sete pontos sustenta a decisão de aprovar ou reparar — hoje e daqui a dez anos, quando alguém abrir o data book.
Como a CB Inspeções emite os laudos
Na CB Inspeções cada junta radiografada recebe laudo individual, com os parâmetros da técnica, a medição de densidade, o IQI utilizado e a lista de indicações contra o critério do código contratado. Os procedimentos são elaborados e qualificados pelo nosso inspetor Nível 3, e filmes e imagens ficam arquivados e disponíveis para reavaliação pelo cliente ou pela fiscalização. Se você precisa de radiografia de soldas com laudo por junta, fale com a nossa equipe ou conheça a página de inspeção de soldas por radiografia.



